26 Janeiro 2008

... Amor a profissão não enche a barriga ...

Muito se discute quando alguém vai prestar vestibular para Ciências Sociais e logo se questiona a respeito dos salários pagos... Logo o garoto com 17, 18 anos inocente das problemáticas da vida responde, vou fazer o curso por amor a profissão...

Apenas "amor a profissão não enche a barriga", dinheiro é importante sim... afinal você precisa de uma boa casa pra morar pagar contas, viajar, sair, comprar coisas pra casa, livros, comer, pagar faxineira, enfim... "a gente não quer só comida”...

Depois ao longo da vida, você passa a ter filhos, querer ter um carro (você não quer andar de ônibus pelo resto da vida, ou quer?), plano de saúde... enfim os gastos aumentam gradativamente com o passar dos anos... ou alguém considera que estas coisas não são importantes. Podem não ser no momento, porém em um futuro não muito distante, serão essenciais...

Por isso, aliado a outras questões, eu me revolto quando falam que sociólogo tem que ganhar pouco... Enquanto no Brasil se paga na universidade (Nível de Doutor) em torno de 3,5 a 4 mil reais nos Estados Unidos se paga tranqüilo 15 mil aos sociólogos... Uma diferença gritante, isso fora as verbas conseguidas para pesquisas. Só um ignorante para acreditar que Bourdieu, depois de ingressar na universidade continuou pobre...

Neste país existe uma cínica mentalidade de que ganhar um bom salário é ruim, pecaminoso, não é importante, sei lá mais o que... temos de aceitar nossa condição... concordando com essa visão estamos reproduzindo apenas o que queremos combater... Temos que ganhar um salário justo, um bom salário, que atenda as nossas necessidades, tanto do estomago, quanto das fantasias... e sobre espaço para eventuais emergências...

Reverter os quadros da precarizaçao da nossa profissão é também reverter características de nossa cultura, não estamos isolados do mundo. No Ensino Médio os quadros são ainda piores, aqui no Paraná paga-se 620 reais por mês por 40 h/s... O ritmo de trabalho é alucinante, às vezes tem de se encarar 5, 6 classes em um único dia... Ninguém agüenta ficar na profissão... É preciso valorizar mais nossa profissão, não apenas a área da educação, que é o maior mercado, mas também a parte de pesquisa e lutar por mais espaço no âmbito privado...

Ao contrário dos sociólogos de muitos outros países, muitos dos nossos trabalhos, que levam horas para ser produzidos, são entregues de graça, como se não tivéssemos um tempo socialmente gasto para produzi-lo, fico a me perguntar se conheço algum engenheiro entrega algum projeto de graça, um médico faz uma consulta sem cobrar. Penso que o meio das Ciências Sociais tem de perder sua inocência e suas hipocrisias... Faça o que eu digo, mas não o que eu faço... E quero deixar bem claro que isto em nenhum momento quer dizer que não devemos se preocupar com a qualidade de nossas pesquisas...

Não basta conhecer os fatos sociais formalmente, é preciso entender as relações que regem determinada conjuntura. Vejo colegas que trabalham cedo/tarde/noite para ganharem 1,500 reais... é absurdo, mal dá para pagar as contas do mês, mas é a realidade de muitos que não chegaram ainda ao tão desejado mestrado/doutorado...

Infelizmente essa é a realidade da área, não podemos escondê-la, pelo contrário temos de mostrá-la para com base nela, mudar a realidade... Dinheiro é importante sim, não é tudo, mas dá tranqüilidade para enfrentar a realidade...

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