24 fevereiro 2008

O BOPE TEM GUERREIROS QUE ACREDITAM NO BRASIL?: RELATOS DA VIOLÊNCIA URBANA EM TROPA DE ELITE

O que mais impressiona em Tropa de Elite é seu realismo, a forma direta como trata de delicados temas – como drogas, violência e corrupção. O filme inova por mostrar a violência do ponto de vista do policial, que pratica e convive com a violência diariamente. O personagem em evidencia é o Capitão Nascimento um membro do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE). Ele está em crise, seu filho irá nascer e ele precisa arranjar um substituto para as suas funções. A partir daí o filme mostra incursões nas favelas, torturas e os treinamentos dos policiais do BOPE.

Nascimento relata a vida difícil dos policiais do BOPE, as angústias pessoais e as redes de corrupção que é atingem o sistema policial. Descreve uma realidade que inclui policiais corruptos, traficantes, políticos e consumidores de drogas da classe média e alta que contribuem para o sistema funcionar e se perpetuar. Em contraponto, a elite da tropa é tratada como um pequeno grupo resistente a corrupção que percorre o restante da polícia - a glória era uma recompensa muito maior que o dinheiro. O BOPE não foi preparado para enfrentar os desafios da segurança pública. Foi concebido e adestrado para ser uma máquina de guerra, age de forma rápida e eficiente.

Outros filmes já trataram de temas como violência, corrupções, instituições, ONGs, porém nenhum com tamanha eficiência. Existem milhares de monografias, teses de mestrado, doutorado, mas foi um filme que colocou estas questões em pauta nas discussões cotidianas. O cinema tem essa característica de colocar dúvidas, criticar, e não necessariamente dar respostas, o filme apenas sugere.


É importante ressaltar que filmes não são teses, e sim obras artísticas; portanto, seu significado não só é aberto como sujeito a diferentes interpretações em circunstâncias e pontos de vista não necessariamente excludentes.

Os problemas da violência urbana no Brasil não são um desafio do presente, são problemáticas históricos. Tropa de Elite transpôs para o cinema aspectos da sociedade brasileira que todos conhecemos, fazem parte de nosso cotidiano, contudo esquivamos de questionar pois parecem distantes ou impossíveis de serem contornados. Não busca culpas, mas relações de causa e efeito, pois a polícia não existe no vazio. O que é representado no filme, apesar de ser uma ficção, não é uma abstração, é uma realidade.

Problematizar a realidade social vivida, por essência, é uma forma de intervenção no mundo, uma tomada de posição, uma decisão, por vezes, até uma ruptura com o passado e o presente. Em uma análise sociológica, você não pode apenas tentar se pôr no lugar daquele que está falando e deste modo pensar ver toda a complexidade do espaço social a partir apenas deste ponto de vista. Não basta conhecer os fatos sociais formalmente, é preciso entender as relações que regem determinada conjuntura.


Todo texto é subjetivo, uma versão, interpretação dos dados e informações. Por isso, ao captar os fatos o cineasta já imprime sua marca, ao reelaborá-las em forma de narrativa, reinterpreta-a novamente. Ao filmar um determinado fato social não estaremos assistindo a um momento de realidade completa, mas sim uma interpretação do momento na sua fragmentalidade. A obra artística é discurso que quer comunicar algo e que possui a interferência de seu autor, que efetuou um recorte da realidade.


Ao assistir Tropa de Elite é inevitável ao expectador a sensação de incomodo, de um certo desconforto em relação aos aspectos afirmativos de uma sociedade contraditória e discriminatória. A violência no Brasil mais do que banalizada, está naturalizada.

A sociedade moderna está embutida de valores que são muitas vezes contraditórios. As classes mais humildes estão comumente associadas ao crime e a violência sendo submetidos a repressão continuamente. É mais fácil condenar individualmente aqueles que não se adequam as regras, do que procurar entender o que acontece com os habitantes das favelas, inseridos em um contexto de perda de valores, de frustrações, de falta de oportunidades, de violência.

Enquanto houver demanda, o tráfico continuará. Por isto, o filme trata como hipócritas os usuários de drogas – oriundos de diversas classes sociais, mas principalmente das médias e altas. Tendo em vista que ao consumi-las financiam diretamente os traficantes e indiretamente contribui para a morte de inocentes na guerra do tráfico. Devemos entender, no entanto, que drogas são apenas uma ponta do iceberg que são os históricos problemas sociais, habitacionais no Brasil. Existiriam favelas sem o tráfico de drogas, a violência é um processo que envolve dimensões e implicações em várias instancias. O debate suscita uma polêmica exterior: a descriminalização das drogas. Entretanto, isoladamente, a legalização pouco diminuiria a violência.

Uma expressão, às vezes aparentemente uma simples palavra, vem sempre carregada de muito significado, sendo assim, mesmo inconscientemente acabamos por reproduzir e perpetuar coerções de uma determinada cultura, pois influenciamos e somos influenciados pelo espaço social que pertencemos.

Os fatos sociais não surgiram ao acaso foram construídos socialmente. A cultura é como um mapa que orienta as ações dos indivíduos no meio social. Viver em sociedade é viver em razão dessa lógica e as pessoas se adaptam segundo as estruturas de determinada sociedade. Tropa de Elite não defende nenhum dos lados, pelo contrário mostra que uma atitude é conseqüência de outra. Nas atitudes violentas reproduz de outras formas a violência de uma estrutura desumana, da qual sofrem as conseqüências.

É necessário entender a forma como determinados grupos transmitem suas mensagens, quais são seus códigos, os elementos de sua linguagem e suas significações. Os humanos estabelecem ou produzem a vida social ao estabelecerem relações sociais entre si. A maneira como se forma uma estrutura hierárquica depende do contexto, da realidade, das características dos agentes e do campo. As propriedades que determinado setor valoriza servem de diferenciação e define sua forma de relação dentro do espaço social. Valorizar um fato que outros não necessariamente compartilham, ajuda a compreender as razões de determinados fatos terem um ou outro encaminhamento.

O grande número de jovens de classe média e alta envolvidos com entorpecentes, revela uma realidade há muito negligenciada. Num primeiro momento soa pesado acusar as pessoas pela violência no país, porém igualmente contraditório é a população pensar que é apenas vítima. Na visão de Nascimento, os estudantes, “leitores de Foucault”, “moralistas”, criticam a ação da polícia, financiam os traficantes, mas em seguida fazem passeatas contra a violência, ou seja, escondem por trás de valores morais que na realidade não defendem, reproduzindo uma realidade que aparentemente negam. A avaliação da moral do crime e dos seus limites depende das circunstancias.


É contraditório porque a sociedade é contraditória. Um exemplo disto é em uma das cenas finais quando a jovem recorre a polícia para tentar conseguir salvar seus amigos, neste momento os papéis se invertem, a polícia e sua repressão agora são desejadas e valorizadas. Como diz o personagem Mathias: “Agora sou policial né!”.

Outro eixo central da obra é a violência contra a população das favelas, em operações exercidas pela polícia, no filme a Polícia militar de Elite. Neste último aspecto, quem narra legitima a violência como o único meio de combater o tráfico. De certa forma reflete o pensamento de parte da população. Ninguém deseja execuções sumárias e crimes cometidos por policiais, porém em virtude da falta de opções calam-se, tendo em vista que os crimes cometidos pelos traficantes geralmente terminam impunes. Engana-se quem pensa que o mundo real quem detém o poder são os poderes visíveis e as leis escritas. O mais importante é respondido nas entrelinhas das situações.

Além da violência física, os habitantes das favelas enfrentam vários outros tipos de preconceitos e discriminações, o que significa que são vítimas não somente desta modalidade de violência como também daquelas invisíveis, que direta ou indiretamente igualmente fere e muito profundamente que é a simbólica e moral.

A visão parcial da realidade produz não somente idéias falsas, mas práticas equivocadas. A tortura é inaceitável, porém dentro do sistema judiciário atual é inútil encaminhar a pessoa para prestar depoimento em seguida solta-la, deixando-a livre para praticar crimes novamente. A lógica da coerção policial no fundo é desejada, a impunidade passa a idéia de que por justiça, "os fins justificam os meios", entretanto, aceitando a violência estamos, concordando com uma determinada interpretação e o atendimento de algumas reivindicações, contudo, simultaneamente reiteramos uma sociedade injusta, fundada no preconceito e contrária ao Estado de Direito. É lamentável, não se mexe na ordem social, somente num nível restrito.


É mostrado que os setores mais carentes da sociedade brasileira, além da ausência de todos os direitos fundamentais do ser humano, o direito a segurança e proteção, sofrem com a ausência de outros fundamentais: educação de qualidade, moradias dignas, saneamento, emprego com uma remuneração mínima para a cidadania. A violência contra as camadas sociais carentes passa a ser considerada como uma guerra civil não declarada, porém consentida. Direitos humanos tornaram-se sinônimo de hipocrisia, palavras como paz, justiça e igualdade, soam vazias e apenas fazem eco a sentimentos de vingança e ressentimento.

Interessante a abordagem sobre o papel das ONG nas favelas. O filme mostra um garoto com problemas de miopia e ninguém reparou, foi preciso uma pessoa de fora perceber o problema. Aliado a isto, denuncia pessoas se drogando dentro da instituição, e um rapaz servindo de mediação dos traficantes, revendendo as drogas na universidade.


A crise de Nascimento não é meramente ficcional. O sistema engole e molda os sujeitos a sua vontade. Vemos o aniquilamento do sujeito. Os policiais recebem salários desproporcionais às ameaças que enfrentam. Muitos sofrem danos físicos e mentais. A pressão é grande e o risco de morte constante. Há dois grandes problemas na polícia: a corrupção e brutalidade, há um processo histórico da política de segurança pública que está padronizando as atitudes rígidas, dos quais os policiais são também vítimas, antes mesmo de serem apontados como algozes.

As pessoas identificam-se com Nascimento porque vêem nas suas ações um exemplo de combate às drogas e a violência e redescobrem nele o desejo de justiça, de condenar quem burla as regras. Contudo de forma alguma pode considerá-lo como herói. Prática a brutalidade extrema, porque não se sente regido pela legalidade constitucional. Atualmente é comum escutarmos uma história de terror, protagonizada por algum criminoso, acontecida consigo ou com algum parente, amigo ou conhecido. A violência urbana não é uma questão restrita ao Rio. Acostumamos-nos com a escalada da violência, achando normais os quadros da criminalidade. O tráfico atua como um Estado dentro do Estado de direito, sendo mais organizado e poderoso, impondo sua lei e sua ordem por meio da violência, ocupando espaços negligenciados por este. Ver num filme traficantes serem punidos traz uma sensação de alívio e de justiça praticamente impossível no mundo real.

Vendo às corrupções, rimos da nossa própria tragédia. Os fatos são introjetados do cotidiano confirmando o jeitinho brasileiro, que é nossa falta de planejamento, o imediatismo, o individualismo. O expectador é remetido a outras esferas de compreensão além dos fatos narrados. Diante das situações conflitantes e enigmáticas, faz-se analogia com angústias que vivencia no seu contexto social. O “sistema" revela-se uma complexa rede de propinas, negligencias, subornos, impunidade com criminosos. Por que envolver-se, arriscar a vida se pode “negociar”. Configura-se um desvio de conduta generalizado que contribui para que a corrupção tome maiores proporções. A policia fornece armas aos traficantes por dinheiro e depois vai buscá-las para o espetáculo da mídia. As armas que são usadas contra a própria polícia. Reverter os quadros da violência é também reverter características de nossa cultura.

O filme mostra uma estrutura social que vai além dos indivíduos. É estabelecido um contexto narrativo no qual o individuo se encontra preso às amarras de uma organização social que sobrevive e se mantém alimentada exclusivamente por uma estrutura administrativa da qual ninguém escapa ao controle. Você tem de optar, ou se corrompe, ou se omite ou vai para guerra.

Tropa de Elite é um exercício de ironia e cinismo, uma crítica feroz no tempo e no espaço. A linha narrativa é uma variação denuncias de contradições sociais, variando no tom e na intenção, completos em si mesmos e, no entanto, ligados uns aos outros numa estrutura que se revela, no epílogo, integra e coesa.

Tudo é configurado num clima de rendição ideológica, com as pessoas se esquivando das responsabilidades pela miséria, pela violência, pelas arbitrariedades. Os fatos sociais nunca são simples, pelo contrário, são sempre complexos e muitas vezes contraditórios. A naturalização da violência acarreta uma sensação de impotência para lidar com a realidade. A ameaça do medo constante gera conseqüências como a falta de solidariedade, a indiferença para com a miséria. O homem não está alheio ao seu tempo histórico, ele é um sujeito histórico.


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Obs: Este texto foi enviado durante as férias para uma revista contudo infelizmente, ou felizmente nao foi publicado, vou engavetá-lo por enquanto e quando puder remodelá-lo e tentar publicá-lo novamente.

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