28 Outubro 2009

Especial: 21 Cenas clássicas do cinema de Charles Chaplin

Cena 5: O julgamento de Monsieur Verdoux (Monsieur Verdoux - 1947)

Monsieur Verdoux foi um dos projetos mais ousados de Chaplin. André Bazin rasgou elogios por no seu livro Charles Chaplin em dois artigos memoráveis: O mito de Monsieu Verdoux e Monsieur Verdoux, ou o Martírio de Carlitos.

Em suas palavras (BAZIN, 2006, p. 61):

"Criticar Monsieur Verdoux pelo viés habitual das idéias e da arte seria, parece-nos, cair num logro. Pois aqui não se trata de idéias, mas de mito, não de política ou psicologia: trata-se apenas de Carlitos. O segredo de Verdoux é ser a metamorfose de Calitos ao avesso..."

Como dito anteriormente, esta obra é uma comédia de humor negro. Verdoux é um personagem belo e terrível, com quem ao mesmo tempo simpatizamos (ele tem uma ingenuidade típica do vagabundo Carlitos) e ao mesmo tempo execramos.

A história desse filme foi baseada em um personagem real, Henry Landrú (1869-1922), que foi condenado à morte na guilhotina por ter assassinado mais de 10 mulheres e seduzido outras tantas. Neste filme, Henry Verdoux, utiliza-se da sedução à mulheres velhas e ricas, dando o famoso golpe do baú. Depois de casar-se com elas, e apoderar-se de seu dinheiro, Landru assassina-as e parte em busca de outras conquistas.

No início do filme, a família Couvais, preocupada com o sumiço de uma irmã, já idosa, que casou com um tal de Varnay, solicita a ajuda da polícia para encontra-la. A primeira aparição de Chaplin no filme é num jardim, cuidando das plantinhas enquanto sua esposa é assada no incinerador. Varnay, na verdade é um dos tantos nomes adotado pelo Verdoux, que já se empenha a conquistar novas presas. O que recebe, ele aplica na bolsa de valores.

Sua sorte declina quando conhece Annabella Bonheur, que de tanta sorte que tem , não consegue ser assassinada por ele. Na verdade, boa parte do filme é dedicada às tentativas de Verdoux em livrar-se dela. Em algumas partes, a dupla é tão imbatível que torna-se um duelo à parte a interpretação dos dois. Empenhado em descobrir novos meios de matar, ele tenta “testar” um novo produto numa moça que encontra na rua, mas desiste ao saber que ela trabalha para sustentar o marido preso.

Talvez o maior contraste da história seja principalmente o fato dos meios justificarem os fins. Na verdade, Verdoux mata para sustentar sua família (pois sua mulher é paralítica e seu filho menor). Em nome do amor que sente por ela, e por não conseguir mais trabalho devido à sua idade, ele parte em busca de conquistas, agindo de modo até certo ponto profissional. Para ele, nada mais é do que uma continuação de seu trabalho. Condenado à morte por seus crimes, o personagem fala, com o cinismo que lhe é característico, que seu erro foi ter matado pouco. E uma por vez. Porque se tivesse matado muitos, como se faz nas guerras, ele estaria sendo gloriado. Nesse ponto nos sentimos tentados a pensar que quem na verdade estava falando era o próprio Chaplin, que na juventude havia sido condenado por não querer participar da guerra.

M. Verdoux é uma enorme análise sobre as contradições do mundo contemporâneo, um questionamento agudo sobre o valor da vida, da amizade, do amor, da família, do dinheiro, da verdade. Um filme doloroso de se ver e muito, muito ousado.

O final é espetacular. Verdoux no seu tribunal diz:“Se se mata um, é assassino. Se se mata milhões, vira-se herói” Ou ainda, no tribunal, quando o advogado diz que estamos diante de um monstro. E todos se viram para ver Chaplin, inclusive ele mesmo, procurando o tal monstro. Ou ainda, quando Chaplin resolve tomar rum, porque “nunca havia experimentado rum”. E afinal, o plano final do filme, um plano que reforça o tom moral e ético do cinema chapliniano (o assassino tem que morrer e ser punido), mas ao mesmo tempo na minha cabeça ficou uma referência muda ao “pobre Jacques”, a estarrecedora declaração ao final de Le Trou.

Caminhando para o final, Verdoux se entrega a polícia, Bazin diz que o motivo foi o fato de o personagem perder a vontade de continuar fugindo. Ele se cansa desse jogo de lucrar em cima das pessoas.

No final, Verdoux é condenado à morte e segue por um corredor o destino que acabou escolhendo. Neste momento, através do contraste, quem exergamos na realidade é Carlitos caminhando de costas indo para para a guilhotina. É um filme que renderia vários e vários comentários e artigos, tentei ser o mais claro e objetivo possível. Se desejar mais detalhes recomendo a leitura dos artigos de Bazin (2006) acima citados.

Citação:

BAZIN, André. Charles Chaplin. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

Veja a cena no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=htu0bgW69W0&feature=related
Obs: O vídeo contém a passagem completa, o julgamento se inicia a partir do sexto minuto do video.

Outras cenas

Cena 6 - Cena 11 - Cena 16 - Cena 21

Cena 7 - Cena 12 - Cena 17

Cena 8 - Cena 13 - Cena 18

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Cena 10 - Cena 15 - Cena 20


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