A Mãe e a puta - França/1973


Obra-prima do escândalo

Marco do cinema, “A Mãe e a Puta”, do francês Jean Eustache, é a atração do Projeto Um Outro Olhar; filme que provocou escândalo em Cannes em 73 coloca em xeque uma geração

Paulo Campagnolo
Agência Estado


Um filme mítico, escandaloso, uma obra-prima que figura entre as maiores do cinema. Retrato do vazio deixado pelo maio de 68 numa juventude que já não sabia mais por onde seguir – da mesma maneira como o filme parece perambular, entre corpos e discursos vãos, sem nunca saber onde vai chegar.

Um filme que denuncia o filme, que particulariza o seu próprio esforço de ser. Assim é, entre tantas coisa mais, “A Mãe e a Puta”, do francês Jean Eustache, cartaz do Projeto Um Outro Olhar deste sábado. Lançado no Festival de Cannes, em 1973, foi prontamente vaiado e considerado obsceno – mas levou consigo o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio da Crítica.

Realizado em condições adversas, “A Mãe e a Puta” narra as “aventuras” amorosas de Alexandre (Jean-Pierre Léaud) que vive com Marie (Bernadette Lafond), que quer se casar com Gilbert (Isabelle Weingarten) e que conhece Veronika (Françoise Lebrun), uma enfermeira de quem pretende enamorar-se.

Essa aventura, mais do que uma narrativa, é mostrada através de atitudes do corpo e de palavras. São 210 minutos de intensidade existencial, de palavras como se estivéssemos a ler um romance, de imagens que nos atingem de forma brutal – um cinema puro com personagens que só poderiam pertencer a este universo de longos planos, cortes retardados, closes e elipses que revelam verdades só atingidas no momento da filmagem.

Teatral, para chegar mais perto do cinema, o personagem Alexandre parece rejeitar a vida todo o tempo, e conduzir suas ações através das referências ao próprio cinema. Com grande ironia, Eustache preenche o filme com discursos que implicam de forma “escandalosa” no declínio das utopias que sustentaram as manifestações generalizadas em 68.

Alexandre divaga, com fala pomposa, sobre o amor e a liberdade, deixando claro que os slogans do passado não poderiam, de forma alguma, ordenar as condutas amorosas do presente. Alexandre é um flaneur, inconsciente da consciência de seu patetismo, desfiando um corolário inventado por ele mesmo e que encontra reverberação no famoso “Fragmentos de Um Discurso Amoroso” (de Roland Barthes) – que só seria lançado quatro anos depois.


Verdades aturdidas

É de fragmentos, aliás, que se compõe “A Mãe e a Puta” – verdades aturdidas que atravessam os corpos; Jean-Pierre Léaud, emblema da Nouvelle Vague, ora evocando o seu Antoine Doinel (de “Os Incompreendidos”, de Truffaut), ora imitando Belmondo (de “Acossado”, de Godard), e ora destruindo tudo o que ele próprio representou no contexto dos anos 60; a música (como a canção “Les Amants de Paris”, com Edith Piaf) surge como o próprio processo do filme se fazendo - fragmento da construção, da desconstrução, da reconstrução: tentativas de conciliação.

A dificuldade das relações amorosas, as expectativas ou a falta delas, a propagada liberdade sexual tão cara àqueles tempos, a solidão e o gesto político que envolve os jogos de sedução, tudo é devassado por Eustache – e o filme, que decreta o fim da Nouvelle Vague, que põe à prova uma época, que fulgura no vazio (no contraste do preto e branco, nas deambulações, no abandono da narrativa para deter uma cena, uma imagem, um instante), o filme continua de uma força insuperável, como se tivesse sido feito hoje, por algum cineasta que rejeita as convenções, que rejeita a indústria (ou foi rejeitado por ela), que se mantém fiel ao seu tempo, elaborando uma verdade cinematográfica que não deve ser confundida com o real – porque só assim pode encontrar o real. Com “A Mãe e a Puta” Eustache imita Murnau, Godard, Bresson, Truffaut. Imita o cinema e, portanto, imita mesmo a vida.

Faz o filme do filme, devolve a vida ao cinema no que a ela tem de trivial e mordaz, instaura uma desconfiança sobre uma geração que lutou por mudanças profundas e encontrou conforto na alienação. Esmiúça, como um etimólogo, cada palavra e o peso delas, cada gesto e cada atitude corrompida pela voz do aparentemente tangível. “Suicidado” em 1981, aos 42 anos, com um tiro no coração (caminho incontornável do seu cinema), Eustache deixou, além de outros belos trabalhos, este que é um monumento ao amor. Não é pouco.

Paulo Campagnolo é coordenador do Projeto Um Outro Olhar


“A Mãe e a Puta” (La maman et la putain)
França/1973
Direção: Jean Eustache




*

Fimaço... vi ontem no Projeto Outro Olhar e chapei, chapei mesmo... valeu o fds... é um filme longo, mas que vale muito a pena!

6 comentários:

Kimura disse...

estou sempre a procura de blogs interessantes, e o seu é um deles.

me desculpe a invasão.
quando estiver com um tempinho visite o meu de fic, espero que goste também.

Abraços.
Sucesso!

http://kimuratorredevidro.blogspot.com/

Julio Cesar Lourenço disse...

Visito o seu sim e continue conosco até logo!

Anônimo disse...

Olá, sou de Maringá. Onde está acontecendo esse projeto de Cinema?

Julio Cesar Lourenço disse...

Na prefeitura aos sábados 20h... aparece lá!

Anônimo disse...

Ah, que legal cara. Tem algum site do projeto que divulga informações e tal?

Julio Cesar Lourenço disse...

Nao tem nao... manda e-mail pro Paulo Campagnolo (paulocampagnolo@hotmail.com) que ele te informa a programaçao. Até logo!

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