Divulgo aqui no Blog o trabalho que realizei para a disciplina Sociologia da Arte oferecida pela prof Zuleika esta ano
Introdução:
Este trabalho tem com objetivo refletir sobre o filme Opinião Pública de Arnaldo Jabor analisando sua temática, suas condições de produção e relacionando-o com o contexto sociocultural da época utilizando como orientação teórica o artigo de Marcelo Ridentti, Artistas e intelectuais no Brasil pós-1960.
Foi no mínimo estranho e curioso ver um filme de Jabor. Conheço o cineasta de suas colunas dos programas jornalísticos da Rede Globo. Confesso que quando era mais jovem até dava alguma atenção à suas falas histéricas, ultimamente, até troco de canal quando ele começa a falar.
No entanto, é notório que Jabor tem um público fiel e é muito influente mundo afora por conta do alcance de divulgação que possui a rede de televisão da qual é contratado.
Minha vontade de saber mais sobre o cineasta para escrever este texto teve origem algum tempo atrás na biblioteca da UEM por acaso. Estava procurando informações sobre o filme Limite de Mario Peixoto me deparei com o livro Folha conta 100 anos de cinema, obra que é composta por várias resenhas e ensaios, sendo que um dos textos é de Jabor sobre o filme Terra em Transe de Glauber Rocha.
O texto logo me chamou a atenção e lendo-o fica evidente a denúncia sobre as “ilusões políticas” o “romantismo idealista” por desejarem mostrar e revolucionar a sociedade brasileira, por parte dos cineastas do movimento do Cinema Novo.
Argumentos semelhantes aos de Ridentti (2005) ao discorrer sobre o imaginário nos meios artísticos e intelectuais brasileiros na década de 1960.
A condição de país subdesenvolvido implica ao Brasil possuir altas taxas de mortalidade infantil, de analfabetismo, de natalidade ao lado de dados como baixa renda per capita, qualidade de vida da população e expectativa de vida.
Mudar estes dados era o desejo de intelectuais e artistas durante os anos 1950 e 1960. Vivia-se a euforia incitada por governos populistas como as gestões de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. As cidades inchavam e objetos tecnológicos eram lançados a cada momento.
No entanto, viviam-se as conquistas materiais do capitalismo, os novos hábitos modernos: fumar, comer fora, possuir carro, mas mantinham-se as condições periféricas da grande parte da população brasileira. Ou seja, a modernidade no Brasil chegava de forma desigual e através dos produtos industrializados, contudo, ela não representava uma vida com melhores condições de trabalho, ao contrário.
Permaneciam praticamente inalteradas as desigualdades sociais existentes no país, a precária distribuição de renda e a situação das famílias brasileiras. Mantinham-se as diferenças marcantes entre as várias regiões brasileiras determinadas por um tardio processo de industrialização que se concentrou, a princípio, na região Sudeste do país, expandindo-se posteriormente para o Sul e, só depois o Norte e Nordeste.
O trabalhador brasileiro tinha direitos assegurados por lei, mas que raramente eram cumpridos, evitava se reclamar e se organizar temendo o desemprego, trabalhava durante várias horas por dia e os salários não compensam a carga horária nem o esforço que o trabalhador precisa fazer.
Neste sentido, os artistas e intelectuais segundo Ridentti conjeturarvam uma alternativa de modernização que não implicasse a submissão ao fetichismo da mercadoria e do dinheiro, gerador da desumanização.
Por isto, Ridentti (2005, p. 84) mostra que a partir dos anos de 1950, no contexto social, econômico, político e cultural brasileiro, recuperar “o passado” na contramão da modernidade era indissociável das utopias de construção do futuro, que vislumbravam o horizonte do socialismo.
Ridentti (2005, p. 84) afirma que naquele contexto brasileiro, a valorização do povo não significava criar utopias anticapitalistas passadistas, mas progressistas; implicava o paradoxo de buscar no passado (as raízes populares nacionais) as bases para construir o futuro de uma revolução nacional modernizante que, ao final do processo, poderia romper as fronteiras do capitalismo.
Mas, mudanças sociais não ocorrem de uma hora para outra, demandam tempo e uma sucessão de fatores históricos. E ela ao final mostrou que o ciclo de revolução burguesa não se realizou, por uma série de motivos, apenas no campo imaginário ele se efetivou.
A queda dessas expectativas e anseios com o golpe de 1964, praticamente sem qualquer resistência organizada ou efetiva, foi devastadora nos meios artísticos e intelectualizados. Veio mostrar a esses grupos que a realidade brasileira era muito mais complexa e difícil do se poderia imaginar.
Cinema Novo
Jabor possui uma extensa e consagrada carreira cinematográfica, alguns de seus filmes tiveram relativo sucesso comercial e até ganharam divulgação no exterior. O cineasta começou sua carreira escrevendo críticas de teatro. Em 1962 edita a revista Movimento e freqüenta o cineclube da PUC-RJ. Dois anos depois faz o curso de cinema Itamaraty-Unesco. Realiza curtas – O circo e Os saltimbancos – e estreou no longa-metragem com o documentário Opinião pública (1967).
Produziu, em seguida, Pindorama (1970). Adaptou dois textos de Nelson Rodrigues: Toda nudez será castigada (1973) e O casamento (1975). Prossegueu com Tudo bem (1978), Eu te amo (1980) e Eu sei que vou te amar (1984). E recentemente voltou a filmar com A suprema felicidade (2010).
Jabor foi formado no ambiente do Cinema Novo, movimento cinematográfico brasileiro que teve início na segunda metade da década de 50, nascido para questionar as práticas da companhia cinematográfica Vera Cruz e todo o cinema anteriormente produzido por aqui.
Era um cinema feito para o povo, realizado com um desejo empírico tal como um texto de caráter sociológico. O movimento reuniu toda uma geração de cineastas decepcionados pelo ocorrido com a intenção de recriar (ou mesmo criar) o cinema nacional, dialogando com a realidade brasileira e o seu povo.
Discutiam nestes filmes e em seus escritos em jornais, livros e revistas quais eram ou deveriam ser as características do cinema brasileiro, sendo avessos às alienações culturais que as chanchadas refletiam.
Podemos afirmar que o cinema brasileiro era estrangeiro em próprio país, além das salas exibirem praticamente apenas filmes hollywoodianos e identificados com o ideal do estilo de vida americano ligados ao consumismo e aos dogmas capitalistas, os poucos filmes aqui produzidos eram cópias mal realizadas ou precárias de temas e estilos testados pelos estúdios americanos, fato que mostrava a incapacidade dos cineastas brasileiros em copiar os filmes americanos.
Os cineastas do Cinema Novo com o desejo de incutir no público a consciência de sua própria miséria. Transformaram o subdesenvolvimento e as precariedades de produção em uma estética. No entanto, a idéia base do Cinema Novo já era discutida a partir dos anos 50, grupos de jovens e criadores sentiram a necessidade de construir uma identidade verdadeiramente brasileira e que não estivesse atrelada à linguagem estética cultural estrangeira e muito menos dependente da produção norte-americana como referência.
Os cineastas do movimento almejavam um cinema mais próximo ao real, com forte influência do cinema europeu, com um custo reduzido e com um intenso diálogo sobre as questões sociais brasileiras.
As características comuns eram a preocupação e intenção básica em descobrir, estudar, conhecer, interpretar, focalizar, revelar e recriar esteticamente a realidade social brasileira e influenciar o contexto.
Fatores que Guido Bilharinho (1996) afirma que por si só, constituíram uma plataforma programática, enfeixando um complexo de sugestões, impulsos, variantes, perspectivas, possibilidades e, também, imposições, condicionamentos e limitações.
Se dispuseram a realizar filmes de autor, baratos, com preocupações sociais e enraizados na cultura brasileira dentro de uma perspectiva crítica, contestadora e cultural na esteira do lema "uma câmera na mão e uma idéia na cabeça".
Desta forma, o Cinema Novo pela primeira vez, projetou o cinema brasileiro coletivamente no plano internacional, colocando o país definitivamente no mapa do cinema mundial.
Segundo Ridentti:
Vislumbrava-se uma alternativa de modernização que não implicasse a submissão ao fetichismo da mercadoria e do dinheiro, gerador da desumanização. A questão da identidade nacional e política do povo brasileiro estava recolocada, buscava-se ao mesmo tempo recuperar suas raízes e romper com o subdesenvolvimento, o que não deixa de ser um desdobramento à esquerda da chamada era Vargas, propositora do desenvolvimento nacional com base na intervenção do Estado.
O Cinema Novo foi verdadeiro um divisor de águas para a produção e prática cinematográfica brasileira. Ele pode didaticamente ser divido em três fases, a primeira fase 1960 a 1964, abordava o cotidiano popular e a mitologia nordestina, nesta fase nomes como o de Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Luiz Carlos Barre, Glauber Rocha, entre outros, foram os cineastas que buscavam os verdadeiros objetivos de uma real cinematografia brasileira.
Jabor participou da segunda fase do movimento foi de 64 a 68 e abordava os equívocos da ditadura militar e da política. Filmes como O Desafio (1968) de Gustavo Dahl e Terra em Transe (1967) de Glauber Rocha, foram os mais marcantes desta fase.
A terceira fase teve influência do tropicalismo, compreendida de 1968 a 1972, expressou o exótico nacional. Macunaíma, de 1969, foi um dos filmes que marcaram esta época. Entretanto, o recrudescimento da ditadura militar especialmente com a decretação do Ato Institucional n° 5 (AI-5) em 1968, teve um efeito de golpe mortal no Cinema Novo enquanto movimento cinematográfico articulado.
Documentários
O filme documentário teve papel saliente no Cinema Novo, alcançando alguns deles repercussão e influência. Eles tiveram como objetivo cruzar problemas da sociedade brasileira e da linguagem cinematográfica. E os temas mais abordados estavam fortemente ligados ao subdesenvolvimento do país.
Francisco Elinaldo Teixeira (2006, p. 253) observa que a palavra documentário, usada para nomear um domínio específico do cinema, começou a se estabelecer no final dos anos 1920 e início dos anos 1930, sobretudo com a escola documental inglesa, embora já figurasse antes em um ou outro texto. Ela traz as marcas de sua significação, surgida na segunda metade do século XIX no campo das ciências humanas, para designar um conjunto de documentos com a consciência de “prova” a respeito de uma época. Possui deste modo, uma forte conotação representacional, ou seja, o sentido de um documento histórico que se quer veraz, comprobatório daquilo que “de fato” ocorreu num tempo e espaço dados. Aplicada ao cinema por razões pragmáticas de mobilização de verbas, ela desde então disputou com a palavra ficção essa prerrogativa de representação da realidade e, conseqüentemente, de revelação da verdade.
Estabelecer asserções sobre o mundo é a essência do documentário. Este gênero cinematográfico se caracteriza pelo compromisso com a exploração da realidade. Mas dessa afirmação não se deve deduzir que ele represente a realidade tal como ela é. O documentário, assim como o cinema de ficção, é uma representação parcial e subjetiva da realidade. Contudo, por sua força narrativa e o poder de expressão das imagens e dos sons, o público tende a acreditar no cinema documentário como reprodução do real.
Jean-Claude Bernadet (2003) nos lembra que o documentário é um discurso cuja compreensão está ao alcance da razão e da emoção. O documentário coloca os próprios vivenciadores de determinada realidade narrando suas impressões e experiências muitas vezes de forma contraditória ao tema da produção, mas contribuindo como exemplo da complexidade da realidade abordada, permitindo ao espectador suas próprias conclusões.
Por isto, Bernadet (2003) observa que devemos entender esta produção como uma possibilidade de “produção de um olhar” sobre a realidade e não omite que esta visão pode gerar muitas outras interpretações. Estes filmes têm uma grande preocupação em não somente informar, mas também apresentar suas análises e suscitar um debate com seus espectadores.
O filme
Opinião Pública foi realizado em 1967, três anos após o golpe militar de 64. É o primeiro longa metragem de Jabor. Inspirado nas inovações estéticas e técnicas do Cinema Verdade , que tem como carro chefe Jean Rouch de Crônicas de Verão, o cineasta faz uma pretensiosa análise da mentalidade da classe média brasileira, criticando com indignação e ironia o seu conservadorismo e “ingenuidade”, ao apoiar (ou se omitir) a derrubada do regime democrático no país e a não preocupação ou ainda, a não responsabilização com os rumos sociais e políticos do país.
A classe média carioca é examinada através de depoimentos colhidos de estudantes, funcionários públicos, ídolos da juventude, militares, famílias burguesias e outros realizados a partir de incursões do cineasta em rituais sensacionalistas, místicos, políticos e também de ironias com propagandas dos meios de comunicação.
Na montagem são utilizadas algumas cenas de Maioria Absoluta (1965) de Leon Hirszman. Porém, o filme destoa do tom geral dos filmes sobre a ditadura militar ao não fazer menção direta ao Estado autoritário.
Menos ressentido que Terra em Transe, o filme de Jabor procura, por trás do aparato de narrador over, ouvir a "opinião pública". Entrecortado entre os mais diversos embaraços cotidianos, o que se monta é um quadro de decadência da sociedade brasileira, marcada pelo seu conservadorismo, machismo e suas pequenas violências simbólicas cotidianas.
A “espontaneidade” do povo na tela
Tudo o que verão é aqui é típico. Fugimos do exótico e do excepcional e procuramos as situações, os rostos, as vozes e os gestos habituais. Isso porque, refletidas numa tela, as coisas parecem comuns e eternas se revelam estranhas e imperfeitas
Filmes documentários chamam a atenção pela capacidade que possuem de discorrer sobre temas polêmicos do cotidiano das pessoas. Na época de seu lançamento é provável que o filme tenha gerado repulsa ou vergonha aos seus pares. Hoje, porém, ele nos permite perceber certa dinâmica do período ditatorial e a despolitização dos movimentos sociais que o regime forçou.
No filme, o “povo” (sempre idealizado) apóia (ou se omite) a repressão e a liquidação de seus direitos. Expondo uma sociedade aparentemente passível à crise, ao autoritarismo e à fome.
Com gravador na mão e câmera ligada, o cineasta procura saber o que os entrevistados pensam sobre diversos assuntos, mais precisamente o significado da expressão “opinião pública”. Dentre as questões abordadas, surgem reflexões interessantes a respeito das condições do povo para articular idéias e a possível manipulação da informação para as massas.
É interessante notar que a câmera por vezes age no lugar dos personagens. Se, por um lado, percebe-se a necessidade ouvir as pessoas, que contrastam os desejos por esperança para os rumos do país com depoimentos que demonstram a alienação para com questões sociais; por outro lado, o filme deixa sempre as suas falas incompletas, cortadas, não os deixando falar até o fim.
Assim que diagnóstico é feito, corta-se a fala e o narrador entra para julgá-la, invariavelmente reprovando e desmerecendo o que foi dito. O filme deixa falar e ouve o que quer. Desse modo, aproxima-se de Terra em Transe, embora busque encontrar as raízes do golpe por baixo e não por cima, como fez Glauber.
O que surpreende logo no início do filme foi a maneira como os jovens cariocas da época, apesar do gestual, das roupas e da linguagem, se assemelham aos de atualmente: há uma indefinição, uma insegurança quanto ao futuro, uma falta de direção que julga-se ser próprio desta geração.
Já fui por vezes levado a acreditar que este espírito de desilusão se instalara apenas após eventos tal como a queda do muro de Berlim. Mas, vendo o filme, damo-nos conta de que a desilusão, ou o desengano, não é privilégio de época nem de classe.
Neste sentido, são muito interessantes as cenas onde é mostrada uma mulher fazendo uma avaliação negativa de sua vida, narrando a decadência material de sua casa e sua família, enquanto o marido vivia em "farras", e com a seqüência da narrativa, a mesma mulher ironicamente voltando e se destacando ao ensinar algumas garotas "recatadas" sobre relacionamentos e a posição delas na sociedade.
Assim, a narrativa mostra uma sociedade em movimento, mas comprometida, ambígua, sem esperança e decadente, muito diferente das cenas combativas que acostumamos ver nos filmes do Cinema Novo.
O objetivo foi mostrar de que maneira a falta de organização e de consciência política da classe média brasileira foi direta e indiretamente responsável pelo retrocesso político do país.
O filme de Jabor ilustra um pouco o povo que as organizações de esquerda nunca encontraram na sua luta. A partir do filme, fica mais evidente o grau de descolamento existente entre as expectativas desses grupos e o seu poder de recepção por uma sociedade que, se não era um espelho não menos podre da ditadura que os governava, tinha com esse governo muitas afinidades, expressas não na vida pública ou nas idéias políticas, mas na sua miséria privada.
Conclusão
Apesar de Opinião Pública sofrer com a precariedade técnica, os mesmos problemas que atacaram boa parte das produções brasileiras realizadas antes da década de 90 e que talvez tenha rendido ao nosso cinema a má fama que possui entre os brasileiros.
Jabor conseguiu fazer de Opinião Pública um retrato doloroso da classe média brasileira, mostrando sua desresponsabilização a respeito dos rumos políticos e sociais do Brasil. Idealista ou não, é um registro precioso pela sua peculiaridade na filmografia na época da ditadura e um contraponto às produções da primeira fase do Cinema Novo.
Referências bibliográficas:
AUMONT, Jacques e MARIE, Michel. Dicionário teórico e crítico de cinema. 2.d. São Paulo: Papirus, 2006.
BILHARINHO, Guido. Cem anos de cinema brasileiro. Uberaba: Instituto Triangulino de Cultura, 1997
GOMES, Paulo Emílio Salles. Cinema: Trajetória no subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
RIDENTI, Marcelo. Artistas e intelectuais no Brasil pós-1960. Tempo Soc., São Paulo, v. 17, n. 1, jun. 2005. Disponível em . Acesso em 09 dez. 2010.
TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. Documentário Moderno. In. MASCARELLO, Fernando (org.). História do cinema mundial. Campinas: Papirus, 2006.